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19 setembro 2006

Entrevista a Derradê

Bom dia leitor. Estou aqui para lhe dizer que mais uma (grande) entrevista foi realizada em exclusivo aqui para a ÁreaBD! Desta vez tivemos de interromper Derradê que estava tranquilamente no WC... E não é que ele aceitou?
E entrevista foi feita por e-mail e conduzida pelo CESAR e por mim. Sem mais apresentações (acho que todos sabem quem é o grande Derradê) aqui vai a entrevista!


ÁreaBD - Antes de mais, obrigado por aceitar em responder à entrevista e por nos dar uma dose bi-mensal de humor em BD. Em primeiro lugar, queríamos perguntar qual foi o seu primeiro contacto com a Banda Desenhada em si. O Derradê começou pela Disney ou pelos Franco-Belgas?

Derradê - Principalmente pela Disney (da Abril pré-Morumbi): Mickey, Tio Patinhas, Disney Especial, Almanaque Disney (mensais), Zé Carioca e Pato Donald (quinzenais). Também pela Mónica e Cebolinha do Maurício de Souza. Comecei através dos livros e revistas do meu primo, que é 7 anos mais velho do que eu e me ensinou a desenhar, o que implica que também já lia Franco-Belga pois ele comprava a revista TinTin. Comics não tanto mas ainda assim lia alguma Marvel(Bloch) e DC(Ebal). Tudo Brasileiro. O engraçado é que hoje em dia a malta tem gostos extremados, se gosta de mangá não suporta Franco-Belga, se gosta de Franco-Belga não suporta Comics, se gosta de Comics não suporta Mangá. Mesmo no meu maior período de consumo Marvel (início da Homem-Aranha, Super Aventuras Marvel,...) nunca deixei de consumir Franco Belga, principalmente por alturas da Feira do Livro (raramente ia a livrarias de Lisboa o resto ano), e nunca larguei a Disney (é o efeito que o Carl Barks deixa numa pessoa).



A partir de que altura é que começou a desenhar a sério?

Essa altura ainda está para vir, mas comecei a publicar no Jornal Regional Mensal Notícias de Alverca em 1991 (tinha então 20 anos), co-lancei o meu primeiro fanzine em 1992 (o The BadSummerBoys Fanzine, com o Geral - o maior argumentista português vivo, é a minha opinião, lamento) e publiquei o meu primeiro livro em 1999 (Fúria, Edições Polvo).


Desde que começou a ler BD teve logo aquele sonho de poder desenhar BD ou só com a idade é pensou em seguir essa carreira?

Quando em pequenos nos perguntam o que é que queremos ser quando formos crescidos, eu costumava responder "Walt Disney e Astronauta" - eu julgava que o sr. Disney é que fazia aquelas histórias todas e os filmes que eu via, e na altura julgava que Portugal era um grande país, com foguetões e tal.


Quais foram as reacções da família ao saberem que se ia tornar um desenhador pseudo-intelectual?

Depois de pararem de rir, o que ainda levou algum tempo, tiveram reacções diversas: tentativas de internamento em hospitais psiquiátricos ou asilos, corte de relações e mesmo tentativas de assassinato, quer físico quer psíquico. Mas como são da família temos de a aguentar, não é? Mas também deixei de lhes oferecer presentes nos aniversários...


Deduzimos que desenhar seja um part-time. Tem algum outro trabalho a tempo inteiro?

Sim, confirmo, desenhar é um Part-Time. Sou Pai de 3 meninas e Marido da minha mulher, o que me ocupa o tempo todo. Quando era jovem e descomprometido licenciei-me em Matemáticas Aplicadas e fui Analista/Programador durante 10 anos. De momento escrevo, desenho, monto, promovo e trato da gestão da Velvet Underground, proprietária da HL Comix, mas só nos momentos em que a minha vida particular me deixa.


De todos os seus trabalho, qual foi aquele que lhe deu mais gozo fazer?

As minha filhas sem dúvida. As tentativas e repetições que, cada vez mais raramente, vou fazendo. Existe a regra que o trabalho actual é o que dá mais gozo de fazer, e fazer a HL Comix dá-me um gozo muito particular, mas gostava de destacar o "A 25 Sempre a Abril!". Pelo trabalho de pesquisa que implicou, pelo trabalho que deu apertar com o argumentista, pelo trabalhar uma época tão especial da história portuguesa, e tão mal compreendida, e por ser o trabalho de maior fôlego que já fiz - realizado em 28 noites e fins-de-semana consecutivos durante o mês de Fevereiro de 2002.


Se pudesse qualificar as suas obras, como o faria?

Apressadas. Ah, como gostava de poder ter mais tempo (seguido, sem interrupções) para dedicar às minhas BD’s...


Agora, no capítulo referente à sua mais recente produção, como é ser o criador de uma revista como a HL Comix?

É um grande gozo, prazer, satisfação, ser o criador de uma impossibilidade real (uma revista independente portuguesa de BD), e no entanto ela existe. O poder fazer, literalmente, o que quiser e publicá-lo e depois vê-la ganhar vida própria, sair das nossas mãos e ir por essas bancas fora (que na minha opinião é o local por excelência da BD) tentar fazer pela vida enche-me de orgulho.


Em outras entrevistas já admitiu que a HL bebe inspiração de Chiclete com Banana de Angeli, mas já admitiu que não se compara a Angeli, o seu criador. Mas relacionando a HL à CcB, diga-nos em que é que elas são parecidas?

O estilo de BD/Tiras presente nas duas pode ser considerado de Comix, alternativo e underground. Falam de estilos de vida, à sua maneira são subversivas e nelas a música tem uma presença quase vital. Preferem olhar a vida tal como ela é e são o oposto daquilo que representa a imprensa cor-de-rosa. As suas existências provam que existe alternativa ao comics super-heróico ou ao Franco-Belga escuteiro.


Em diversas intervenções, o Derrade demonstra um sentido de amor acutilante e nada sensível, não tem medo de ser mal compreendido e por isso mesmo ser prejudicado nos seus projectos futuros?

Se pretendo ser humorista não posso ter medo. Não é opção. Um Humorista com medo não existe. Quanto às más interpretações, tudo depende de quem lê, e o autor nisso não tem hipótese de controlar. Se eu disser "esta parede é branca" as más interpretações que daí possam ocorrer são inúmeras. É só quererem.


Classifique a HL para quem nunca pegou num exemplar (no fundo faça publicidade).

A HL Comix é uma revista de BD/Humor Alternativa e 100% Portuguesa. Para além disso têm artigos sobre Artistas/Obras de culto no campo da música, cinema, literatura. Se acha que a sua vida é triste venha ler a HL. Atreva-se! Pode ser corrosiva. Pode ser ácida. Pode ser bera. Pode ser desprezível. Pode ser a 8ª maravilha do mundo. Pode ser a janela para uma série de autores que se movimentam nas franjas do que é comercialmente aceitável. O que não é, nem nunca será, é mais uma revista alienada para com o que a rodeia.


Acha que a aposta numa revista deste género está a valer a pena? Que os portugueses se estão a rir mais graças ao seu trabalho?

Certamente que estão rir mais. Principalmente aqueles que se queixam que nunca se faz nada neste país e que, quando aparece a HL (ou outros projectos similares), não o apoiam, não a compram, não a divulgam, enfim matam o bebé (olá Pedro Santana Lopes) à nascença pois poderá não estar de acordo com a sua concepção de BD, e poderá mesmo ser uma ataque à sua inteligência (que a têm). Dito isto, não me estou a referir a ninguém em particular.


E é claro a pergunta que não pode faltar: Quais as suas expectativas em relação à HL?

As minhas expectativas em relação à HL Comix são enormes. Espero que ela se torne economicamente viável, que ela se torne num espaço onde outros autores possam publicar, e receber por isso, aquele material que dificilmente seria publicado em outros locais, que seja um exemplo de que é possível fazer uma revista de BD independente das vontades das editoras ou grupos de editoras que por formação ou deformação não respeitam a 9ª Arte.


Tem mais algum projecto na forja?

Todos os meus projectos centram-se em material a publicar na HL. Tenho um projecto que já acarinho desde 2002 e que seria um folhetim policial, em BD, uma espécie de mistura de Adéle Blanc-Sec do Tardi com o Twin Peaks do David Lynch, tudo com um grafismo semelhante ao do Sfar no Professeur Bell, ambientado na Lisboa dos anos 40 (pré, durante e pós 2º Guerra Mundial) e chamado provisoriamente LX40. O protagonista seria alguém com aquela doença de alergia à claridade, o que implicaria o uso do preto tornando a BD mais pesada e o corpo da personagem coberto de ligaduras. Ele seria também um pouco médium.


Se pudesse tomar alguma medida para mudar a situação da BD em Portugal, qual seria?

A nível estatal, governamental ou o que lá for a BD teria de ter tratamento igual ao das outras artes! Licenciaturas nas Universidades Públicas, encomendas estatais de trabalho, o regresso das bolsas de criação artística. Relevar o emprego da BD no ensino, não só em Português, onde se ensinaria os segredos da linguagem BD (quando estudava fazia parte do programa mas não era leccionado por ser dispensável...), como na Física, Matemática, História,... Como em Educação Visual (em 5 anos que tive esta disciplina nem uma única vez afloramos a BD, engraçado não é...). É na escola que se criam os novos leitores (obrigado mestre José Ruy pelos Lusíadas em BD, foram inestimáveis). É fora dela que se dá prestígio à BD: Rubricas semanais na TV PÚBLICA, já enviei duas revistas ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa e népia, mas quando sai um novo Ásterix ou um novo número de uma revista mais intelectualóide, lá está ela a aparecer. Não se pode mudar a importância de uma arte por decreto, mas tanta discriminação já cheira mal.


Por fim, queríamos saber como é que vê a (má) situação pela qual a Banda Desenhada no nosso país atravessa.

A HL Comix está nas bancas. O BDJornal está nas bancas. Qual má situação? Realmente as revistas de Super-Heróis não estão a aparecer, mas o que isso significa? Que apesar da excelente oferta da Devir as vendas não o justificavam? Os Fumetti que por cá chegam via Brasil vendem quanto? Qual é a situação dos Disney? Em bruto quais são as vendas mensais da BD que chega às bancas? E nas livrarias com os álbuns e trade paperbacks? É outro mercado, talvez mesmo outro público, aquele que não perde tempo nas tabacarias a não ser para comprar o jornal e o tabaco, mas que vai às livrarias (bicho raro). Parece-me que embora a oferta seja diminuta em relação a outros países (Espanha seria um caso de estudo bastante interessante uma vez que França já está demasiado batido) a culpa da crise actual é a fuga de clientes. O público parece ter desaparecido. O que não se vende não se faz. Deixo-vos uma pergunta: quantos telemóveis têm e quanto gastam com eles todos os meses. Portugal é (foi?) o país do mundo com maior taxa de implantação de telemóveis. A inveja, a vaidade e o exibicionismo em Portugal faz ganhar dinheiro a muita gente.


Queríamos agradecer a disponibilidade, pois sabemos que é um homem muito ocupado. Pedimos desculpa se tomámos algum do seu precioso tempo, pois neste momento podia estar a salvar a humanidade. Muito obrigado.

16 abril 2006

Entrevista a Daniel Maia

Aqui está a 3ª entrevista feita em exclusivo para a ÁreaBD! Desta vez a vítima foi o Daniel Maia. Esta entrevista já tinha sido feita há uns quantos meses, mas por motivos de adiamento da inauguração da nova editora do Daniel, só agora pôde ser colocado no ar.
Daniel é Maia nasceu em 1978, em Lisboa, e estudou arte na Fundação Gulbenkian em 1996. Ainda antes, em 1995 tinha ganho o 3º Prémio para Melhor Artista Revelação no FIBDA. Na sua carreira já colobarou com várias editoras como a Wildstorm, Boom! Studios, Platinium Studios, Devir e Vitamina BD.
Também é agora que se prepara para estrear a sua nova Editora, a Arga Warga, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.

ÁreaBD!- Como surgiu o teu interesse pela BD?
DM: No útero onde fiquei alojado durante os nove meses de gestação não havia realmente muito com o que ocupar o tempo. Fazer piscinas em líquido amniótico o dia todo, e pouco mais. Por sorte, o hóspede anterior tinha deixado lá ficar algumas revistas a um canto, por sinal de histórias aos quadradinhos, com as quais me entreti. Pode-se dizer portanto, que este interesse pela BD já nasceu comigo... ;>


ÁreaBD!- E com que idade despertou o teu interesse pelo desenho?

DM: Muito sinceramente, não tenho uma resposta definitiva para isso porque, desde que me lembro, desenho. Dizem-me que aos dois, três anos já fazia rabiscos figurativos com a anatomia nos sítios certos, mas eu só tenho algumas memórias de muito cedo, quando já mexia em revistas do Hulk e outras; na altura os livrinhos de BD deviam ficar mais em conta que álbuns infantis, e acho que foi isso que deve ter selado a minha sina.

ÁreaBD!- Desde sempre que pensaste em seguir a carreira de desenhador?
DM: Bem, eu na realidade acho que ainda não me decidi, de facto, a seguir a carreira de desenhador. Caso contrário, já teria aproveitado as várias oportunidades que me têm caído no colo ao longo dos anos. E isto antes mesmo de me ter associado à agência Arts & Comics International! Se me tivesse decidido por seguir carreira nisto então talvez já estaria bem lançado por esta altura...

Acho que o desenho, sendo algo que esteve presente desde que era pequeno e sendo uma parte indissociável de mim não está, como tal, verdadeiramente á mercê de uma escolha. É a “cruz” que carrego...!

No entanto, lembro-me de certa vez – vá-se lá saber porquê – ter decidido deixar a BD de lado. Se calhar estava a testar-me a mim mesmo, mas sei que parei por completo de desenhar e de comprar ou ler BD. E foram os piores seis (…penso) meses da minha vida – pareceram 6 anos!

ÁreaBD!- Como começou a tua carreira?
DM: Começou em 1993, quando colaborei no jornal produzido no meu liceu, com um suplemento de BD. A tiragem era apreciável, o pagamento apenas simbólico e os trabalhos que fiz um desastre, mas foi um começo... Deu para perceber como se funcionava a nível de bastidores e também serviu para ganhar alguma notoriedade; e não me refiro aos desenhos, mas ao facto de ter feito histórias interventivas sobre a administração do liceu. Deixo à vossa imaginação as consequências da ousadia…

Por essa altura comecei também a ser procurado pela câmara municipal para lhes fazer trabalhos gráficos, fazendo simultaneamente de ilustrador e preparador de offset (isto, antes do advento da impressão digital). E de resto, no meio profissionalizado da banda desenhada, estritamente falando, tudo começou dois anos mais tarde quando ganhei um concurso de BD na revista Crash! Supostamente ia ser publicada uma história minha no #3 desta, mas a revista foi descontinuada a partir do #2.

ÁreaBD!- Já agora, houve algum autor em especial que te serviu de inspiração para as tuas primeiras criações?
DM: Bem, eu sempre tive alguma versatilidade em termos de traço, e sempre fui muito “esponja” no que toca a absorver estilos de outros autores. É uma fase natural na criação de uma linguagem gráfica, mas muito acentuada em mim dado muitas vezes o fazer sem me aperceber. E, visto os meus gostos estéticos serem muito diversificados, fui sempre saltando de registo em registo (com resultados variáveis), pelo que não consigo apontar uma referência em especial. As minhas inspirações foram sempre muito cíclicas.

Mas sempre gostei em particular da “escola” de estilo do Kevin Nowlan e afins. Esse é talvez o autor que posso citar como sendo a minha inspiração mais constante, e aquela que mais revejo nos meus trabalhos.

ÁreaBD!- Qual foi o teu primeiro trabalho em conjunto com uma editora?
DM: Em relação ao mercado norte-americano? Já tive convites que, por razões várias, não deram em nada, pelo que a primeira colaboração foi – e continua a ser – o Guilty, com o Steven Grant. É um álbum extenso, que sofreu um retrocesso quando a primeira fornada de pranchas foi roubada, mas fora isso tem sido formidável o contacto com o Steven. Ele tem uma inteligência acima da média e é alguém que procura projectos fora da norma, com subtextos. Quando troco ideias com ele, sinto-me um padawan junto de um mestre Jedi ;)

Também tive a oportunidade de colaborar com o Mark Waid no ano passado, numa BD para a antologia Zombie Tales. A ocasião apareceu porque o desenhador original tinha desertado, forçando-me a pegar no trabalho a uma semana do deadline(!). Ainda terminei a maioria das páginas mas entretanto um outro autor entregou primeiro. A forma de trabalhar do Mark é muito descomprometida e informal, e até com algum sentido de humor na maneira como comunica contigo nos guiões. O sotaque dele é do mais americanóide possível!

Cheguei também a ter contacto com outros argumentistas, do Garth Ennis ao próprio Jim Lee, e estive também, por mais do que uma vez, para trabalhar indirectamente com o Alan Moore; e ainda estou, num dos trabalhos que “sobreviveram”. Como já não é segredo para ninguém, o homem é descritivo que se farta.

ÁreaBD!- Passando agora aos teus gostos pessoais, qual é a tua personagem de BD preferida?
DM: Não acho que seja tanto o personagem, mas mais o que se faz com ele que me atrai. Pessoalmente, há já alguns anos que dou por mim a seguir mais projectos ou certos autores do que necessariamente personagens; em especial projectos bem escritos, visto que não sinto necessidade de me manter a par dos trabalhos dos desenhadores para aperfeiçoar o meu próprio. Nisto, provavelmente por ser alvo das melhores abordagens, e pela mão de diversos dos melhores profissionais no negócio, talvez o Batman seja um preferido. Mas existem outros de que sempre gostei, e vão do Flash Gordon ao Daredevil e Punisher, etc.

ÁreaBD!- E quais são os teus artistas predilectos?
DM: Pois... Tendo em mente aquela questão da “esponja” de há pouco, é-me difícil apontar alguém em especial porque quase todos já me foram, numa altura ou outra, preferidos. Sou um bocado purista, pelo que prezo principalmente bons desenhadores de preto-e-branco. Talvez por isso Kevin Nowlan e Mike Mignola sejam definitivos, Sérgio Toppi e Battaglia também, muitos dos mestres argentinos, mas também artistas da nova tendência “widescreen” como Brian Hitch, não esquecendo o Ivan Reis (com a excelente arte-final do grande Marcelo Campos) com quem tenho a honra de partilhar agência. E há muitos mais que podia citar...

ÁreaBD!- Os comics são mesmo o teu género preferido?

DM: Não necessariamente. Felizmente sou muito variado nas minhas leituras, e tenho sempre um livro em prosa na mesa-de-cabeceira. Antes de mais, adquiro demasiado para o pouco tempo que tenho para ler, e depois, as compras mensais podem ir do comic mais popular do momento aos mais alternativos álbuns independentes. É importante alargarmos o nosso espectro de leitura e horizontes, e não nos centrarmos num só sector do que está disponível. Só tenho pouca paciência para Mangá, dos quais me comecei a afastar precisamente na altura em que começaram a entrar na moda, há alguns anos. Hoje em dia leio só uma obra ou outra, pontualmente.

ÁreaBD!- É neste momento que tencionas criar uma editora. Pão-de-Law será o primeiro projecto?
DM: Por “default”, sim. Na realidade, as minhas intenções para a editora passam por novelas gráficas, ou álbuns se quiserem, bem longe do género super-heróico em que a ´Pão se insere. Mas vou começar por ela porque é algo que está na lista de afazeres há algum tempo e é um tipo de material que actualmente me dá gozo desenhar. Pareceu-me mais razoável começar por algo já desenvolvido e que aliás tinha prometido concluir.

ÁreaBD!- Quando é que poderemos ver a revista nas bancas?
DM: Nas bancas, nunca. Em livrarias especializadas, só lá para Maio, dependendo de haverem ou não muitas sobras após o lançamento em Abril (no 2º Festival Internacional de BD/ Beja).

Falo em sobras porque a revista pretende ser um género de preview para o primeiro álbum da heroína, pelo que vai ser produzida essencialmente como uma edição comemorativa. Vai ter uma tiragem limitada e numerada, e portanto talvez até nem faça muito sentido comercializá-la em lojas. Só a vou disponibilizar ao público em geral porque pode haver quem não tenha como ir a Beja para a comprar.

ÁreaBD!- Essencialmente, que tipo de aventuras vamos poder acompanhar?
DM: A Pão-de-Law vai ser o meu escape. É um mundo futurista ao género de Metropolis (de Fritz Lang, não o de Superman) onde, dada a premissa meio alucinada da série, qualquer ideia é válida. Podem acontecer qualquer tipo de histórias, desde situações mais cómicas a aventuras mais complexas, com viagens no tempo-espaço, ou só mega-conflitos de heróis versus vilões. O truque é que tudo isto tem lugar no solo e contexto nacional.

Mas como não tenho o hábito de fazer as coisas sem propósitos, actualmente a minha missão é passar o conceito de que esta heroína desajustada é a única defesa que a metrópole tem, e que por isso a cidade não só está à mercê dos vilões como da própria heroína de serviço. Se conseguir implementar esse status quo, então sim vou ter algo (tanto quanto sei) original com que trabalhar. Depois vou explorar essa situação, havendo espaço para a tradicional história da origem (que há-de ser tudo menos tradicional) enquanto crio os alicerces para um conjunto de BDs de uma visão muito própria ao “mundo dos super-heróis”.

ÁreaBD!- Irás divulgá-la (a editora) de que forma? Através de algum evento especial?
DM: Não por ora. Esta revista vai basicamente ser a proverbial pedra de toque, o instrumento com que vou entrar no sector e procurar sondar e entender as circunstâncias inerentes ao negócio; e isto, sem que tenha de colocar muito capital em risco. È, essencialmente, um teste ao piso, antes de me fazer à pista, passo a expressão. Não é a forma mais clamorosa de começar um projecto que quero de fasquia alta, mas nem o mercado nem as bolsas estão para saltos no escuro... Portanto, respondendo à pergunta, de momento não tenho nada de especial planeado para a estreia da editora, à excepção da edição desta revista e do seu anuncio oficial. Mas quando o 1º volume for lançado, então sim vou pensar num evento mais cerimonial para a ocasião.

ÁreaBD!- Futuramente, a tua editora irá disponibilizar mais títulos?
DM: Já tenho pensados quais poderão ser os próximos seis. Vai levar algum tempo até conseguir pô-los a todos cá fora, dado a cadência de edições ser ao ritmo de uma por ano – e isso admitindo que há possibilidades de manter a editora – mas se Budha quiser, hei-de ir paulatinamente concluindo um projecto atrás do outro.

Os volumes da Cavalinho Atómico, a divisão de registo super-heróico da editora, irão ser preenchidos totalmente pela Pão-de-Law por ora, o que não significa que não possa lá mais para a frente fazer um álbum dentro desse género que nada tenha a ver com o universo dela. Já o catálogo principal vai rondar temas de horror vitoriano e de ficção-científica. De momento já consegui autorização para adaptar duas das minhas obras preferidas nessas matérias (em ambos os casos, clássicas).

ÁreaBD!- Vais continuar a colaborar noutros projectos sem serem os teus?
DM: Sim, claro. A Arga Warga é um investimento privado, para ser levado paralelamente a todos os outros projectos que tenho em mãos. Mas há muito mais no prelo que não só os projectos da editora. Por exemplo, neste momento lancei uma iniciativa que queria fazer há algum tempo, o projecto All*Girlz, que irá provavelmente ter algum parceiro na sua produção, e enquanto editor, estou filiado no projecto da revista Blazt, para a qual vou promover e coordenar a produção de conteúdos através da minha editora. Tudo isto vai ao encontro do meu interesse em puxar pela introdução de novos talentos no panorama nacional.

E depois, gosto de poder colaborar em antologias sempre que tenho oportunidade e tenho compromissos assumidos junto de editoras norte-americanas também. Este último, mais que qualquer outro, é o que vai definir que disponibilidade vou ter para avançar com publicações via Arga Warga.

ÁreaBD!- Por falar no All*Girlz.ine, como é que surgiu a ideia para o criar?
DM: É algo que já vem de trás. Na altura em que participei numa mostra de BD em Almada (Urbe Fiction), em 2004, fiquei agradavelmente surpreendido pela quantidade de novas autoras que participaram nela com boas, ou pelo menos promissoras propostas gráficas e temáticas. Propostas de qualidade que quanto a mim mereciam bastante mais destaque do que estariam a ter.

Quanto mais pensava no assunto mais me ia apercebendo das várias outras autoras que já conhecia no meio e que estavam essencialmente no mesmo patamar das suas evoluções artísticas (ou estéticas, se quisermos) que aquelas outras. Por esta altura também, começaram a fazer-se notar com maior visibilidade os sites especializados portugueses de fãs de Manga, através dos quais se tornava obvio o vasto potencial feminino latente na área.

Atendendo às variadas tendências que estavam a ser tentadas por estas autoras, cuja noção generalizada era de serem parcas consumidoras de BD e uma minoria criativa no sector, achei que poderíamos na realidade estar perante um daqueles momentos mágicos imponderáveis e imprevisíveis que só a espaços se observam nos meios artísticos: O começo (não orquestrado) de todo um Movimento.

Aliás, fosse o nosso mercado mais dinâmico e convidativo, ao invés da velocidade letárgica a que se mexe, e acredito que mais facilmente esta onda seria notada. O All*Girlzine não é mais do que a minha tentativa de auscultar este fenómeno e procurar nutri-lo, visto estarmos seriamente debilitados em suportes que acalentem produções regulares porem curtas, que permitam o exercício dos autores e o contacto dos leitores com estes (como por exemplo ensaiam ser a Sketchbook e a Blazt).
A minha esperança é que este projecto seja o virar da chave e ignição que ponha o motor a funcionar. Para já, a julgar pelo nível de adesão e qualidade dos trabalhos enviados, as perspectivas parecem-me boas!

ÁreaBD!- De que forma estás inserido no projecto Blazt?
DM: Inicialmente fui convidado a agir como promotor de conteúdos da revista, associando ao network de mais indivíduos nas mesmas funções (ie. Ricardo Machado, da Fisga Design, ou Jorge Nesbit da Ar.Co., entre outros…) de que é composto o conselho editorial da revista; no meu caso, por intermédio da minha chancela. Isto basicamente significa que, ao albergue da minha editora, vou estar a instigar e orientar vários novos (ou experimentados) autores que conheço na realização de trabalhos. É algo entusiasmante porque posso facultar meios de publicação a pessoas que, doutro modo, em especial no deficiente mercado que agora temos, dificilmente encontrariam uma plataforma com a exposição e oportunidade de treino que a Blazt oferece. Em termos de evolução autoral, é mais proveitoso produzirem-se histórias curtas que grandes e epopeicos álbuns.

Mas entretanto, estando o #2 praticamente com um pé na rua, optámos por reter a sua edição (e distribuição do #1) para darmos uma grande volta ao projecto que como consequência vai estar ausente do mercado por mais alguns meses, mas que posteriormente irá ter montada a infra-estrutura para ser algo realmente internacional, mensal e duradouro. Vamos apresentar este futuro formato da Blazt no decorrer do FIBDB.

ÁreaBD!- E a tua colaboração na Sketchbook foi apenas passageira?
DM: De todo! Continuo a manter contacto próximo com o estúdio e, por exemplo, ainda recentemente fui convidado a intervir como júri no 5º Concurso de Jovens Talentos que o AJCOI promoveu (junto com o autor João Mascarenhas e Ricardo Cardoso, da livraria Nono Império). Além disso, temos o hábito salutar de nos ajudarmos mutuamente, seja em termos de partilha de conhecimentos ou recursos. Uma das autoras que vai estar em destaque na próxima Sketchbook de Junho foi-lhes recrutada por mim, assim como diversas participantes no All*Girlzine vieram-me recomendadas pelo Diogo Valadas.

Acho que temos alguma sintonia nos objectivos dos nossos contributos à banda desenhada portuguesa, pelo que há um certo espírito de equipa. Sinto-me como que um membro honorário do estúdio;) Em termos da revista em si não há nada planeado, excepto talvez uma eventual capa lá mais para a frente.

ÁreaBD!- Finalmente, o que tencionas fazer a nível artístico no futuro?
DM: …Lembrei-me de uma frase do Woddy Allen em que ele diz, “Não acredito em reencarnação, mas pelo sim pelo não, trago sempre uma muda de roupa”. E eu, como ele, vou precisar usar mais do que uma muda de roupa para conseguir completar tudo o que gostava a nível artístico. Costumo dizer a brincar que tenho trabalho até 2010. Mas o mais trágico nem é isso ser verdade, mas o facto de na realidade ter material para desenvolver até bem mais tarde!...

Em primeiro lugar tenho um formidável agente à espera que me livre de compromissos já assumidos para aceitar algo na indústria USA. Existem alguns convites na mesa junto de uma das ´majors, embora nada de concreto para já. Depois, existe a graphic novel que estou a fazer com Steven Grant, que está de novo bem orientado, estando a ser produzido com o intuito de uma posterior adaptação ao cinema. E fora isto, fora trabalhos para a Arga Warga, existem ainda outras colaborações previstas. Em termos de futuro, há mesmo muito a que dar vazão...

ÁreaBD!- Bem, só nos resta agradecer por seres tão simpático em conceder-nos esta entrevista. Desejamos-te boa sorte e esperamos que tenhas um bom futuro no mundo da BD. Boa sorte.

DM: Obrigado eu. Espero não desapontar.

17 fevereiro 2006

Entrevista a Álvaro

Pessoal, mais uma grande entrevista realizada em exclusivo para a ÁreaBD!
Desta vez entrevistámos o Álvaro, um excelente artista, infelizmente não muito conhecido, mas com muito potencial. Ao longo da entrevista poderão ficar com um "cheirinho" do seu excelente trabalho, e pederão ver muito mais em: www.geocities.com/alvarossantos
Desde já agradecemos ao entrevistado pela sua disponibilidade e simpatia, que tornaram esta entrevista possível.

1. Como é que surgiu o teu interesse pela BD e pelo Cartoon?

-Não me lembro. Deve ser nato. Em puto não me lembro de ter lido nada sem desenhos. Aliás, acho que o primeiro livro (sem ilustrações) que li sem ter sido obrigado foi já quando andava na faculdade. Aí desforrei-me.

2. Quais foram os teus primeiros passos nessa área?

-Desenhos obscenos nas carteiras da escola possivelmente. Tínhamos de ocupar o tempo. Chegámos a fazer uma bd tipo Cadáver Esquisito onde entravam uns professores... mas não a divulgámos muito.

3. Para além de fazeres BD, tens mais alguma ocupação?

-É mais ao contrário. Para além das minhas ocupações, na formação profissional, nas explicações e em algum projecto de Arquitectura que surja, também faço bd.

4. Segundo o que vimos aqui, estás a fazer uma BD que, a nosso ver, tem bastante potencial.
O que pretendes fazer quando a acabares? Vais publicá-la?

-Tenciono publicar. Ou que a publiquem, mais precisamente. De início, quando tiver a bd concluída na mão, vou bater a umas portas e sondar as hipóteses. Depois, em função das respostas que obtiver, pensarei no plano B.

5. Podes dar-nos alguns detalhes sobre este teu trabalho?

-Quando comecei a pensar no projecto, a ideia era ser uma bd simples, rápida de fazer, a preto e branco, de baixo custo e hilariante. O objectivo era e é captar público, vender alguma coisa, dois ou quatro mil exemplares, para ter algum retorno financeiro e abrir caminho a mais projectos na mesma linha, em registos diferentes e a outros autores também.

Acabou por se tornar na bd mais complexa que já fiz. Das iniciais duas personagens, às tantas tenho quatro num diálogo de surdos a seguirem monólogos cruzados em conflito aberto com os monólogos dos outros. Gerir isto, gerir o ritmo da historia, gerir os ritmos individuais, evitar repetições gratuitas, gerir as redundâncias, manter o ritmo, não deixar o andamento ir abaixo, não acelerar, manter as expectativas no final de cada página (pode ser que isto seja publicado num jornal ou numa revista), manter a coerência de cada personagem ao exceder os seus limites, arranjar tempo e espaço para desenhar, etc. tem sido um pouco complicado. Neste momento já finalizei a página 40. Falta passar a tinta as últimas vinte. Depois é só digitalizar, dar uns retoques e, muito possivelmente, refazer a letra. Espero encontrar editores que apostem nisto.

6. As ideias para alguns dos teus trabalhos surgem de algumas situações do dia-a-dia ou directamente da tua cabeça?

-Surgem directamente de situações do dia-a-dia que ficaram retidas na minha cabeça. É uma espécie de purga.

7. Em que é que te formaste? E em que ano?

-Licenciei-me em Arquitectura, pela FAUTL em 1993. Ainda vou exercendo a actividade.

8. Tens alguma ideia dos teus futuros trabalhos?

-Tenho algumas ideias. Umas são sequências directas do «Sexo, Mentiras e Fotocópias», outras não têm nada a ver.

9. Na tua opinião, qual foi o melhor resultado que obtiveste numa obra tua?

-Este do Sexo, Mentiras e fotocópias e da bd que fiz para a exposição do Geraldes Lino no FIBDA de 2005 parodiando o Little Nemo (resultou bem). Também gostei do Marco e Daniel, do Xatoman e a do Arrastão que teve reacções interessantes no CentralComics. Mas esta das fotocópias está a dar mais luta.

10. Se pudesses escolher, que personagem de BD serias?

-Agora é que me lixaram. Sei lá. Uma daquelas personagem do Cosey que andam a vaguear pelo Tibete ou pelos Alpes à procura não-sei-do-quê... Um Garfield, não capado claro... Ou o Hulk, talvez... Às vezes apetece-me demolir umas coisas.

11. Do que leste de BD até agora, do que é que mais gostaste?

-Gostei do Quotidiano Delirante do Prado, do Corto Maltese na Sibéria, do Hulk x Wolverine do Sam Kieth, do Arzach do Moebius, do Peter Pan do Loisel... O que ando a gostar bastante de momento é da série Spaghetti Brothers do Trillo e do Mandrafina que anda a ser publicada a cores pela Vents d’Ouest. É uma moca.

12. O que achas do governo?

-Acho que os membros do actual governo podiam ser um pouco mais discretos nas suas intenções. E nos seus actos, já agora. Só por uma questão de pudor. Mas não adianta a gente queixar-se muito. Quando esses saírem, os seus lugares serão prontamente ocupados por outros idênticos com tem acontecido pelo menos nas últimas décadas.

Os políticos são um bom reflexo do país que os elegeu. É necessário começar pelos putos, bem cedo, mesmo antes de aprenderem a ler, explicar-lhes que o saque sistemático àqueles que ganham menos irá a médio prazo aumentar a diferença entre as classes económicas, criar mais criminalidade e aumentar o risco de um dia não poderem movimentar-se sem escolta militar.


13. Por fim, o que achas do panorama actual da BD em Portugal?

-Profissionais precisam-se! Mas antes disso convinha que os amadores que por aí andam tivessem mais oportunidades para publicar e que fossem pagos razoavelmente para continuarem nisto e um dia passarem a viver desta actividade. Para se fazer um trabalho em condições é necessária muita prática e experiência. Se não somos publicados, se o traço não evolui ao nível do dos funcionários da indústria dos mangás ou dos super-heróis, não podem vir depois rotular a inexperiência ou o desencanto por preguiça.

29 dezembro 2005

Entrevista a José Carlos Fernandes

Iniciamos com esta entrevista uma nova secção aqui na ÁreaBD: a secção de entrevistas a autores.
Esta entrevista foi feita a José Carlos Fernandes, exclusivamente para a ÁreaBD. A entrevista foi realizada via e-mail.
Também agradecemos a sua disponibilidade por ter respondido ás nossas questões e a sua simpatia.
(As imagens foram colocadas aleatoriamente, sendo que não têm nenhuma ligação com as perguntas a que estão juntas).


ÁreaBD- Quando é que começou a fazer os seus primeiros desenhos?
José Carlos Fernandes- Como quase toda a gente, muito cedo, mas intermitentemente e sem método ou objectivo. Portanto os progressos foram, durante anos quase nulos. Entre os 18 e os 25 anos quase não desenhei. Só considero que comecei a desenhar a sério aos 25 anos. E poucos meses depois estava a fazer a minha primeira BD. Foi por isso que precisei de fazer quase 100 pranchas de BD até que a qualidade do desenho ficasse a par com os textos e a narrativa.

ÁreaBD- E quando é que começou a produzir os primeiros textos?
JCF- Também aí não existia prática prévia. Nunca escrevi nada. O meu primeiro texto surgiu quando tive de fazer a minha primeira BD.

ÁreaBD- Sempre foi fã de BD?
JCF- Sim. Comecei pelas BD's de Walt Disney, pouco depois de ter aprendido a ler, passei depois à revista "Tintin", que publicava várias histórias em continuação (o que nos deixava suspensos até à semana seguinte, para saber como se iria o herói desenvencilhar), e aos álbuns do Astérix e Tintin.

ÁreaBD- Quais foram os seus primeiros trabalhos para editoras?
JCF- Durante vários anos trabalhei para mim mesmo, não esperando vir a ser publicado, até porque o panorama da edição de BD em Portugal pouco tinha a ver com os meus trabalhos. Fui publicando em fanzines. Até que em 1993 surgiu o "Quadrado", um fanzine "profissional", com qualidade equiparada à de revista, editado por pessoas ligadas ao Salão de BD do Porto. Publiquei aí regularmente e o editor do "Quadrado" desafiou-me a fazer uma história de 32 págs. em formato comic-book, que iria inaugurar a colecção "Quadrado Comics". Foi assim que em 1994 fiz "A lâmina fria da lua", que seria o primeiro nº (e último, creio) da dita colecção. Entretanto já tinha publicado, em 1993, em edição de autor, "Controlo remoto". Ainda em edição de autor fiz "Irrealidades quotidianas" e depois em 1996 comecei a publicar pela Pedranocharco, que foi um projecto editorial que naufragou mal saiu do porto. Editei em diversas editoras até chegar à Devir. Mas, salvo raras excepções, não tenho concebido livros a encomenda de editoras – faço o que me dá na gana e depois espero que alguém esteja disposto a editar-me (veja-se o caso de "A última obra-prima de Aaron Slobodj", que fiz em 1997 e só foi editado em 2005).


ÁreaBD- Houve alguém em especial que o motivou a seguir esta carreira?
JCF- Não. Nem sequer a planeei como carreira. Fiz a primeira BD, fiquei interessado, fui fazendo mais, fui explorando diferentes temas e grafismos e sem que eu me apercebesse disso ou o tivesse planeado, tornei-me num "profissional".


ÁreaBD- O público só conhece os seus desenhos de pessoas “normais”. Nunca teve curiosidade em desenhar Super-Heróis?
JCF- Não, os super-heróis não me interessam de todo. As pessoas "normais" são suficientemente ricas e interessantes.

ÁreaBD- A série “A Pior Banda do Mundo” é um dos seus mais conceituados trabalhos. Mas reparámos que nunca põe pontos finais no fim das frases. Há algum motivo em especial?
JCF
- Não é só em "A Pior Banda do Mundo". Deixei de usar pontos finais. Se o discurso já está fechado dentro do balão ou do cartucho, não sinto necessidade de o fechar com um ponto final.

ÁreaBD- Só por curiosidade, onde é que vai arranjar nomes tão esquisitos para as suas personagens?
JCF- É uma história complicada. Por um lado, o meu cérebro, que facilmente se esquece de nomes como Sousa, Silva ou Antunes, retém facilmente nomes como Szymborska, Zelenka ou Zulfikarpašić. Por outro, muitos dos nomes que uso não se limitam a ser esquisitos ou a soar-me bem (isto também é importante), mas remetem para figuras reais, personagens literárias, lugares, etc. Não é indispensável que o leitor compreenda essas alusões para que perceba a história, mas quem conhecer essas referências culturais terá um bónus de entendimento. Raros são os nomes que são escolhidos ao acaso. Por exemplo, criei o nome de Sebastian Zorn, a partir dos nomes de dois dos meus músicos favoritos: Johann Sebastian Bach (1685-1750) e John Zorn, um músico de jazz norte-americano (actualmente com cerca de 50 anos). Não podiam ser mais diferentes: enquanto a música de JS Bach é um monumento de equilíbrio, rigor, serenidade e harmonia, a de Zorn assenta no improviso, no paroxismo, na imprevisibilidade e pode misturar elementos tão díspares como música tradicional judaica e o thrash metal. Ah, e Zorn, em alemão, quer dizer "ira".

ÁreaBD- E como é que consegue ter tanta inspiração para criar estórias tão bizarras?
JCF- Quem sabe de onde vêm as ideias? Esse é o mistério da imaginação. As ideias aparecem de onde menos se espera. O meu trabalho é estar atento, agarrá-las quando passam e voltar a pô-las em liberdade se verificar que não têm serventia. Às vezes são-me sugeridas por uma leitura enviesada: salto uma linha no jornal e aparece-me uma situação insólita. Vou registando as ideias em folhas soltas e depois sistematizo-as numa base de dados de ideias para histórias. Também vou recolhendo nomes de pessoas, lugares, livros, máquinas, inventos, tudo o que possa ser usado numa história.
Mas as minhas histórias não são tão bizarras como podem parecer à primeira vista. Pois são, no fundo, sobre nós mesmos, pessoas banais de uma qualquer sociedade ocidental no princípio do século XXI:


ÁreaBD- Está a pensar em levar esta série até que número?
JCF- Não sei. "A Pior Banda do Mundo" é um projecto aberto. Tenho planos para pelo menos mais 3 volumes: "O Teatro Vegetal Zucchini", "A Sede Provisória do Governo Mundial", "O Atlas Ilustrado da Ilusão Humana". Depois logo se verá.


ÁreaBD Já tem o 6# volume terminado? Quando o poderemos ver nas bancas?
JCF- O vol.6, "Os Arquivos do Prodigioso e do Paranormal", está pronto há 2 anos e será lançado provavelmente em Outubro de 2006. O vol.5 estava pronto desde Abril de 2001.

ÁreaBD Já está trabalhar no próximo número?
JCF
- Estava a organizar as sinopses para os volumes 7, 8 e 9, mas surgiu a oportunidade de fazer "A Agência de Viagens Lemming" e deixei-os momentaneamente de parte.

ÁreaBD- Já sabemos que está trabalhar no projecto Black Box Stories. Pode adiantar-nos alguma coisa sobre a continuidade do mesmo? E porquê a escolha de tal nome?
JCF- Durante muitos anos só tive ideias para histórias que fosse eu mesmo capaz de desenhar. Como sou um desenhador limitado, isto definiu o âmbito do tipo de histórias que criava. Um dia decidi deixar a imaginação à solta, e gostei dos resultados. Na verdade, posso dizer que são as minhas histórias favoritas, de quantas fiz até à data. Mas estas histórias pediam, para serem plenamente realizadas, alguém com mais "visão" gráfica do que eu. Foi então que me pus em busca de cúmplices: propus colaboração aos meus desenhadores portugueses favoritos. Só o Miguel Rocha é que respondeu afirmativamente.
Depois "descobri" o Roberto Gomes num workshop de BD que orientei na Biblioteca Municipal de Loulé. O Luís Henriques encontrei-o noutro workshop, que orientei no curso de BD do Centro de Imagens e Técnicas Narrativas da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Quem me chamou a atenção para a Susa Monteiro foi o José Freitas e o João Miguel Lameiras, da Devir, durante o 1º Festival de BD de Beja, para o qual ela fez o cartaz.
Posso adiantar que há mais 2 "recrutas" que muito possivelmente entrarão no projecto, o Vitor Hugo, português e sem experiência na BD, e Ken Niimura, que vai ser a nossa lança no Japão e nos vai permitir dominar o mercado mundial de manga e ficarmos obscenamente ricos. OK, a verdade é que Ken é espanhol (de origem japonesa) e tem já vários livros publicados. O Ken juntou-se ao projecto porque me pediu um prefácio para o seu último livro e eu, ao ver o seu portofólio, achei que ele era suficientemente versátil para se enquadrar nas BBS.

Quanto ao nome: vejo a inspiração como uma "black box", uma "caixa negra". Há inputs: vive-se, assiste-se, lê-se, ouve-se. E há outputs: peças de teatro, filmes, livros. No meio está o processo criativo: misterioso, insondável, imprevisível. Dei o nome de "Black Box Stories" a esta série não só em referência à caixa negra dos aviões (a BBS nº1 é precisamente sobre a caixa negra de um avião que cai na selva do Yucatan), mas também ao enigma do processo criativo. As primeiras 30 ou 40 BBS surgiram do nada, sem avisar, durante um mês ou dois, sem esforço. Depois acabaram, por mais que espremesse as meninges não surgia nem mais uma. Passado um ano e meio surgiram mais umas 80, em 3 ou 4 meses. E depois a fonte voltou a secar.


ÁreaBD- Não vai desenhar nenhuma estória desse projecto?

JCF- Em princípio não, pois nunca fez parte dos meus planos e as BBS desenhadas até à data têm excedido as minhas expectativas.

ÁreaBD- Sabemos que tem estado a trabalhar noutro proj

ecto- A Agência de Viagens Lemming.

Em que consiste?
JCF- "A Agência de Viagens Lemming" surgiu em resposta ao desafio lançado pelo João Miguel Tavares, do "Diário de Notícias", para fazer uma tira diária em continuação para as páginas de Verão do jornal. A única condição é que o tema tinha de estar relacionado com o verão. Achei que as viagens seriam um tema rico e diversificado. Como acho que uma tira em continuação não tem "substância" suficiente para manter o interesse do leitor, propus antes duas tiras, ou seja uma pequena página de BD. Foi uma maratona, pois tive que fazer uma página por dia, da concepção da história à arte final, durante 62 dias (Julho e Agosto). Como muitas das ideias que tive não couberam nessas 62 págs. e estava "embalado" aproveitei e fiz mais 62, ou seja um 2º volume. Estou agora a tratar das artes finais.

ÁreaBD- Pode-nos revelar a data da publicação destes seus projectos pela Devir?
JCF- "A Agência de Viagens Lemming vol.1: Dez mil horas de jet-lag" sairá no início de 2006 pela Devir, possivelmente com o "Diário de Notícias". O vol.1 das "Black Box Stories", desenhado pelo Luís Henriques, sairá em Abril de 2006, no Festival de BD de Beja. Algumas "Black Box Stories" desenhadas pelo Miguel Rocha estão a ser pré-publicadas na revista "C", do Centro Comercial Colombo.


ÁreaBD- Quais são as suas preferências de leitura a nível de BD?
JCF- Não leio BD de super-heróis (o único livro desta área de que gosto é "Arkham Asylum", de McKean/Morrison) nem de manga. Mas a BD nem sequer é o que me ocupa mais tempo de leitura. Leio poesia, ficção, ensaio (sobre biologia evolutiva, economia, religião, mitologia, música clássica – interesso-me por muitas coisas diferentes), enciclopédias, atlas, dicionários. Se tiver que reencarnar como insecto, quero ser um peixinho-de-prata, um daqueles bichos que se alimentam de livros.
Os autores favoritos da minha biblioteca são:
Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Roberto Juarroz, Carlos Drummond de Andrade, Gonzalo Torrente Ballester, Camilo José Cela, Manuel Vázquez Montalbán, Francisco de Quevedo, Miguel de Cervantes, Enrique Vila-Matas, Antonio Gamoneda, Franz Kafka, Bohumil Hrabal, Milan Kundera, Milorad Pavić, Hans Magnus Enzensberger, Czeslaw Milosz, Heiner Müller, Rainer Maria Rilke, Marin Sorescu, Wisława Szymborska, Albert Camus, André Malraux, Georges Perec, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Alessandro Baricco, Italo Calvino, Andrea Camilleri, Umberto Eco, Sergio Solmi, Francesco Petrarca, Julian Barnes, Bruce Chatwin, Virginia Woolf, T.S. Eliot, Seamus Heaney, William Shakespeare (os sonetos), Charles Tomlinson, Ray Bradbury, Douglas Coupland (até "Polaroids from the Dead"), Sam Shepard, E.B. White, Robert Bringhurst, Frank O'Hara, Walt Whitman, António Lobo Antunes, Rui Nunes, Eça de Queirós, José Saramago (antes do declínio iniciado com "Ensaio sobre a cegueira"), Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Herberto Helder, Luis Miguel Nava, Almada Negreiros, Alexandre O'Neill, Fernando Pessoa (sobretudo Álvaro de Campos). Estou agora embrenhado na leitura de um ensaio fascinante (e espesso: quase 700 pg) de David Landes, intitulado "The wealth and poverty of nations: Why some are so rich and some are so poor", uma história económica do mundo desde a Idade Média aos dias de hoje.

ÁreaBD- Qual é a sua personagem de BD favorita?
JCF- Identifico-me mais com autores e livros do que com personagens. Se tivesse mesmo de escolher uma seria Corto Maltese.

ÁreaBD- Quais são os seus autores preferidos?
JCF- Na BD: Will Eisner, Neil Gaiman, Ben Katchor, Winsor MacCay, David Mazzucchelli, Dave McKean, Jon J. Muth, George Pratt, Chris Ware, François Boucq, François Bourgeon, Nicolas De Crecy, Hermann, Jacques Loustal/Paringaux, François Schuiten/Benoît Peeters, Alberto Breccia, José Muñoz/Carlos Sampayo, Hugo Pratt, Stefano Ricci, Miguelanxo Prado.

ÁreaBD- Pode dar um conselho para aqueles que querem seguir a carreira de artista de BD?
JCF- Guardaram para o fim a pergunta mais difícil.
Não há receitas nem fórmulas de aplicação geral. Cada um tem que descobrir o seu caminho, consoante a sua personalidade, os seus interesses e os seus objectivos. A minha experiência pessoal de pouco servirá para quem queira vir a desenhar os "X-Men".
Os conselhos que posso dar são necessariamente muito genéricos:
1) Para quem desenha, praticar até cair para o lado, e evitar copiar os desenhadores idolatrados. Desenhar a partir do natural, de modelos, de fotos (tiradas por si mesmo ou pilhadas a revistas e jornais), mas não dos desenhos de outros, senão será difícil desenvolver um estilo pessoal.
2) Para quem quer ser argumentista, ler muito e de forma alguma só BD. Ler muito, não para tomar modelos, mas a) para se ter uma noção da vastidão do mundo da literatura e da experiência humana, b) para se perceber o que já foi feito (não vale a pena tentar inventar a roda outra vez) e c) o que não deve ser feito (nesta área não vale a pena perder muito tempo).